A história dos incas começa com uma lenda e termina com a conquista espanhola. Segundo a tradição, Manco Cápac e Mama Ocllo, filhos do deus Sol Inti, fundaram Cusco por volta do século XIII. A partir desse vale, os incas construíram o Tahuantinsuyo, o maior império da América pré-colombiana, do sul da Colômbia ao centro do Chile.
Este primeiro capítulo da nossa série sobre a história dos incas apresenta a lenda da fundação, as quatro regiões do império e a forma como ele era governado. É o contexto que torna muito mais fácil entender cada muro, caminho e templo inca que você verá em Cusco.
Como começa a história dos incas? A lenda de Manco Cápac
O relato de origem mais conhecido foi registrado por cronistas como o Inca Garcilaso de la Vega. Segundo a lenda, Inti viu que os povos dos Andes viviam sem ordem e enviou seus filhos, Manco Cápac e Mama Ocllo, para guiá-los. Os dois surgiram das águas do lago Titicaca levando um bastão de ouro e uma única instrução: estabelecer-se onde o bastão afundasse com facilidade na terra.
O bastão finalmente afundou no vale de Cusco. Ali, conta a tradição, Manco Cápac ensinou os homens a cultivar a terra e Mama Ocllo ensinou as mulheres a fiar e tecer. Assim nasceu a cidade que se tornaria a capital do Império Inca, e sua história continua visível nas ruas de Cusco.

Onde se desenvolveu a história dos incas?
A civilização inca se desenvolveu nos Andes centrais. Sua ascensão começou por volta do século XIII, mas os incas não foram a primeira grande cultura do Peru. Povos andinos anteriores, conhecidos como culturas pré-incas, já dominavam a tecelagem, a cerâmica, a ourivesaria, a música e a astronomia, e os incas herdaram e aperfeiçoaram boa parte desse conhecimento.
Seguindo a lenda, os fundadores migraram das margens do lago Titicaca para o vale de Cusco, e dali surgiu o Tahuantinsuyo (Tawantinsuyu em quíchua). Tawa significa “quatro” e suyu significa “região” ou “parte”, então o nome pode ser traduzido como “as quatro regiões unidas”. Hoje você pode seguir esse legado do centro de Cusco até Machu Picchu.

Quais eram os quatro suyos do Império Inca?
O império era dividido em quatro grandes regiões, ou suyos, cujos caminhos principais partiam de Cusco. Segundo a tradição, cada suyo também era associado a um animal simbólico.
| Suyo | Direção a partir de Cusco | Destaque |
|---|---|---|
| Chinchaysuyo | Noroeste | A região mais populosa; chegava ao sul da Colômbia |
| Antisuyo | Leste, rumo à Amazônia | Coca, plantas medicinais, ouro e penas |
| Collasuyo | Sudeste | O maior território, ao redor do Titicaca e mais ao sul |
| Contisuyo | Sudoeste | A menor região, com saída para a costa do Pacífico |
Dica de guia: a Plaza de Armas de Cusco ocupa a grande praça inca de onde partiam os caminhos para os quatro suyos. Lembre-se disso ao percorrer o centro histórico: o traçado da cidade faz muito mais sentido quando você a imagina como o centro de um império.
Collasuyo
Associado simbolicamente à lhama, o Collasuyo era o maior suyo, embora pouco povoado, e era considerado um dos mais importantes. Seu caminho saía de Cusco rumo ao sudeste, pelo vale sul de Cusco na altura de Urcos, e dali se estendia pelo altiplano boliviano, para o sul até o rio Maule, no centro do Chile, e até o noroeste da Argentina.
Chinchaysuyo
Associado à jaguatirica (tigrillo), o Chinchaysuyo se estendia para o noroeste pelos Andes e pela costa até o sul da Colômbia, perto de Pasto. Era a região mais populosa do império e uma fonte importante de produção agrícola.
Contisuyo
Ligado ao condor, o Contisuyo ficava a sudoeste, entre o Chinchaysuyo e o Collasuyo. Era, de longe, o menor suyo, e sua saída para a costa o tornava responsável por abastecer o Inca e a nobreza com produtos do mar.
Antisuyo
Associado à onça-pintada, o Antisuyo abrangia as encostas orientais dos Andes e a borda da floresta amazônica. Era rico em recursos que não existiam nas terras altas: folhas de coca, plantas medicinais, ouro, penas coloridas e aves exóticas.

No seu auge, o império abrangeu partes dos atuais Peru, Equador, Colômbia, Bolívia, Chile e Argentina. Sua marca nesses países continua forte. O quíchua, língua oficial do império, é falado hoje por milhões de pessoas nos Andes, e os linguistas continuam estudando sua rica estrutura e o conhecimento que ela preserva.
Como o Império Inca era governado?
O Estado inca era uma monarquia teocrática: o governante era considerado filho do Sol e concentrava o poder político e religioso. Também era um Estado multiétnico. Muitos dos povos incorporados ao império mantiveram suas línguas, seus senhores locais e seus costumes, desde que aceitassem a autoridade do Inca e contribuíssem com seu trabalho.
O culto ao Sol estava no centro desse poder. O Inti Raymi, a grande Festa do Sol, homenageava Inti, e todo mês de junho uma encenação dessa cerimônia ainda é realizada em Cusco. A encenação principal acontece todo 24 de junho em Sacsayhuamán, como contamos no nosso guia de Qorikancha e Sacsayhuamán.

O Inca
O Inca era a autoridade máxima do Tahuantinsuyo, com poder absoluto sobre as pessoas e a terra. Vivia em Cusco, onde cada governante construía seu próprio palácio, e a nobreza inca também tinha propriedades reais em lugares como o Vale Sagrado. Por isso Cusco se tornou a cidade imperial.
Todas as grandes decisões partiam de Cusco: a construção da rede de caminhos do Qhapaq Ñan e dos tambos (pousadas para viajantes e mensageiros), a administração dos recursos e a distribuição do exército. Um dos trechos mais conhecidos dessa rede é a Trilha Inca até Machu Picchu, que também pode ser percorrida em uma versão curta de dois dias. A lealdade da população ao Inca era tanta que suas ordens eram cumpridas em todo o império.

O conselho imperial
O Inca escolhia pessoalmente um conselho de assessores de sua confiança. Eles o ajudavam a decidir como agir em cada situação, manter a ordem e garantir uma vida adequada aos habitantes do império. Também o mantinham informado sobre os suyos e seu desenvolvimento.
O Apunchic
O Apunchic governava uma província dentro de um suyo. Cada suyo tinha muitas províncias, e cada Apunchic mantinha a ordem e executava as determinações do Inca em seu território. Ele prestava contas diretamente ao Inca e viajava constantemente para supervisionar sua província.
O Tucuyricuy
Conhecido como “aquele que tudo vê”, o Tucuyricuy era o inspetor do Inca. Sua função era garantir que os funcionários de todo o império cumprissem bem suas tarefas, e ele tinha autoridade para cobrar tributos e aplicar sanções. Era como os olhos do próprio Inca: só a ele prestava contas, e ninguém mais podia lhe dar ordens.
O curaca
Os curacas eram os líderes locais. Em contato direto com as comunidades, organizavam a produção, o trabalho agrícola, as obras públicas e o serviço militar. Em troca, tinham privilégios: um pequeno palácio, mais terras para cultivar, acesso ao Inca e, em alguns casos, uma aclla (uma das mulheres escolhidas) como esposa. O curaca que não cumpria seus deveres podia ser enviado para a puna, longe de tudo, para pastorear animais.
O purec
O purec era o chefe de família e fazia parte da população trabalhadora. Cumpria as tarefas que o Estado exigia de cada lar: obras públicas, serviço militar, trabalho no campo e construção dos palácios incas. Não tinha contato com o Inca, mas podia se reunir com o curaca quando necessário.
Para fortalecer esses laços, ao iniciar seu reinado o Inca tomava esposas das famílias desses líderes, o que ajudava a garantir a lealdade e a coordenação em todo o império.
O que vem a seguir na história dos incas?
O império atingiu sua maior extensão no século XV e no início do XVI, mas sua vida como Estado independente terminou após a chegada dos conquistadores espanhóis em 1532. Os grandes governantes, a expansão e a conquista serão o tema dos próximos capítulos desta série. Enquanto isso, você pode ler nosso guia da história de Machu Picchu.

A melhor forma de entender a história dos incas é vê-la onde ela aconteceu. No nosso City Tour em Cusco, um guia local leva você pela antiga capital do império e explica as histórias por trás de suas pedras. Fale conosco e ajudamos você a planejar sua visita.
